1. Proporções e perspectivas

    Muitas vezes entramos em um museu esperando um espetáculo da perfeição. Admiramos a forma, a técnica, e geralmente sequer importa o sentido da obra. Pode ser por isso que os museus de cera tem tanta afluência. A obra, vista desta maneira, tem seu sentido implícito no fato de estar exposta no museu, isto é: seu status reside no feito de ocupar aquele lugar.

    Esta é uma questão básica. O museu outorga autoridade e importância da obra exposta. É seu espaço ontológico, onde a partir dele tal objeto se caracterizará em uma série de pequenos eventos de importância, quando falamos deles. Outorga luxo, de proporção nada acidental. Logo, estes eventos de importância, se convertem em eventos de “mega importância”, quase (se não totalmente) espirituais.

    É fácil intuir que, na história da arte, o foco passou cabalmente da admiração das destrezas do artista -financiado pela corte, isto é, com uma pressão de uma autoridade absoluta que poderia exaltar ou obstruir por completo sua carreira- às destrezas do espectador. Novamente, o espectador que entra em um museu interessado em não fazer parte da obra, muitas vezes sai indignado. Não forma, de maneira satisfatória para ele, esta breve teoria que chamei de “série pequenos eventos de importância”, e como resposta reacionária diz que “é preciso estudar” antes de participar daquele espaço artístico.

    Não me parece má idéia, mas tampouco uma obrigação. O que sim é importante ressaltar com estas duas considerações (a de mudança de centro de atenção na história da arte, resultando no cambio da técnica pelo sentido, que não se reflete só na história da arte, mas em toda história do pensamento) é que ao fazer uma projeção de sentido, tal como adequar o sentido do espaço presente em opiniões futuras, como no caso do museu, continuam estando em jogo as técnicas mais elementais dos grandes artistas: a justa proporção, resultante de diversas perpectivas. E provavelmente não poderemos fugir desta articulação, seja como artistas -cumprindo ou desafiando estas “normas”, sem nunca deixar de fazer parte do simulacro do espectador- seja como visitantes, sem nunca poder inibir esta participação ativa de criação e hermenêutica da obra.

    Hélio Oiticica - Metaesquema (1958)

Notes

  1. otempo posted this