1. Sonhos e realidades: despertar e consciência

    Pensar no conceito de “sonho” é recordar um pouco a Chuang-Tzu sem saber ao certo se era um homem sonhando ser uma borboleta ou uma borboleta sonhando ser um homem. Através desta imagem mostra-se que pouca há diferença entre sonhar e despertar.

    Para os orientais, o despertar ativa a consciência, a leva a outro “estágio de sonho”, para situar-nos em “infinitos despertares”. Funcionam, ao contrário da filosofia ocidental, em uma lógica da contradição. A consciência não é passiva a um objeto intencional. O conceito de consciência é absoluto, e não uma conseqüência de um cérebro vivo. Esta afirmação se dissolve facilmente ao entender a consciência como uma inerência da vida mesma, e não como uma excentricidade humana. Se não fosse pela consciência -pela vida- o cérebro não seria mais que carne em putrefação.

    Na filosofia ocidental, fala-se da ponta do iceberg da consciência de maneira definitiva, como tudo. Temos pressa.

    Para os orientais, no entanto, a criação de instantes -a história- além de uma questão de vontade é a determinação intuitiva que faz-se das circunstâncias -os lugares- por onde caminhamos. Em materia de imagens, podemos pensar na tentativa de mudar o passado que incomoda, seus padrões, fechar o ciclo do que ficou inacabado, lidar com pulsões ocultas e trazê-las “à mente”; com o tempo, dar-lhes nome, significado, indicar e traduzí-las a outros nomes, multiplicando sonhos numa tentativa inútil de fuga do presente eterno.

    Eis então a imagem tomada como objeto, projetada. Eis que dela também é seqüestrado o tempo. Como conceito, é habitualmente entendida em oposição à “realidade”, que, ao sintetizá-la dessa maneira, e com um pouco mais de rigor, deveria ser vista também como imagem oposta a si mesma.

    Entretanto, esta imagem de realidade nos informa, nos transforma, nos sonha. Por isso, o oriental com razão nos dirá, sorridente, que somos pensados pelo pensamento.

Notes

  1. otempo posted this