Teatro do teatro (1)
“Ervas, pedras e raminhos, é a vocês que confio a guarda em pensamento da imagem que ficou em vista de meu corpo imbecil. Poeiras da rua, restos de fósforos, pedacinhos minúsculos, coisas do talude, listras, barbantes de rebotalhos, usados e caídos, pedaços de coisas dos objetos de queda, escamas, parafusos pequenos e pregos, pedacinhos minúsculos soltos do todo, fragmentos do que, ser da sarjeta, seres do talude, seres do solo da rua e dos bosques, coisas do baixo que vivi no chão pisoteando, recebam de minhas mãos minha boca e minha palavra. Tomem. Nunca uma coisa daqui recebeu a vida como cadáver.” (NOVARINA, V. A inquietude, 7letras, 2007, p. 43)
O ser. Palavra antiga, convertida em palavra boba. Em mera palavra, tematização do que. E do seu uso padrão e acostumado, faz-se a métrica da parafernália rasa que alcançou a filosofia ocidental academicamente difundida.
Bem vista, sim, no sentido de que quem logra cortejar a autoridade ou o público, no vocabulário pessoal de tal ou tal autor, somente saberá melhor o idioma conceitual de tal ou tal autor.
Não importa -e isto é uma característica da sociedade de hoje- o conteúdo, a razão, a essência pessoal, “os pedacinhos minúsculos soltos do todo”, que se correspondam ou não e porquê. Na verdade, o conteúdo é só o parâmetro institucional. E de preferência, que estrangule a poesia lassa pela aparência de técnica descritiva. Trabalha-se o sentido legislativo daquele que compõe o discurso [histórico] sem maiores pretensões de novas constatações. Afinal, o discurso, afirmação paradoxal, se não é certeza não é. Mesmo que seja certeza da dúvida.
Pelo lado do empate -e no presente-, trato de entender por quais motivos nos sentimos nesta assimetria indecorosa, recorrente, neurótica e gratuita em relação à este escambo de rótulos e classificações ineficiêntes, entendido como “filosofia”. Por quê (e aqui a sinceridade concatena-se com o orgulho) minhas boas observações surgem de um profundo desrespeito e desprezo. É possível que esta resposta -tão espiritual- tenha corpo de economia e política, cabeça analítica e sustente um poderoso giro dialético. A página de uma época que está virando-se bem devagar.